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Mineração

O município mais rico em royalties do Brasil — e o que sobra para quem mora nele

Canaã dos Carajás recebe sozinha quase um de cada cinco reais que a mineração paga a todos os municípios do Brasil. Por habitante, arrecada mais de 400 vezes a média nacional. A pergunta que os números não respondem sozinhos: para onde vai esse dinheiro?

Redação Ver-o-MoneyCanaã dos Carajás

No sudeste do Pará, a cerca de 600 quilômetros de Belém, fica o cofre mais cheio da mineração brasileira. Canaã dos Carajás — casa do complexo S11D da Vale, o maior projeto de minério de ferro do mundo — lidera, mês após mês, o ranking nacional da Compensação Financeira pela Exploração Mineral, a CFEM, os chamados royalties da mineração.

Os relatórios oficiais de distribuição da Agência Nacional de Mineração não deixam dúvida sobre a escala. Nos três repasses mais recentes — referentes a abril, maio e junho de 2026 — a prefeitura de Canaã recebeu R$ 61,99 mi, R$ 71,59 mi e R$ 60,98 mi. Em cada uma dessas remessas a cidade ficou em primeiro lugar no Brasil inteiro, à frente de gigantes minerários de Minas Gerais como Nova Lima, Congonhas e Mariana.

O número que ninguém mais tem

R$ 194,6 mi

recebidos por Canaã dos Carajás em CFEM em apenas três meses (abril a junho de 2026), segundo os relatórios da ANM. É uma média de R$ 64,9 milhões por mês — ritmo que projeta cerca de R$ 778 milhões ao ano.

Traduzido por habitante, o abismo aparece. Com uma população estimada pelo IBGE em 89,5 mil pessoas em 2025, esses três meses equivalem a R$ 2,2 mil por morador — ou, no ritmo anualizado, cerca de R$ 8,7 mil por habitante ao ano, o equivalente a quase seis salários mínimos por pessoa. Na média do Brasil, cada brasileiro corresponde a menos de R$ 21 por ano em royalties municipais de mineração.

Royalties de mineração por habitante, ao ano

CFEM (cota-parte municipal) por habitante, ritmo anualizado a partir dos repasses de abr–jun/2026. Escala logarítmica para caber a diferença.

Fontes: ANM (relatórios de distribuição, remessas 746/747/750), IBGE (população). Cálculo Ver-o-Money.

A conta é direta e desconfortável: cada morador de Canaã dos Carajás “vale”, em royalties, 418 vezes um brasileiro médio. Não porque produza mais, mas porque mora sobre uma das maiores jazidas de ferro do planeta — um privilégio geológico, não um mérito local.

Um de cada cinco reais do país

O dado individual de Canaã só faz sentido diante do total nacional. Somando os três repasses de abril a junho, a ANM distribuiu R$ 1,1 bilhão a mais de dois mil municípios mineradores de todo o Brasil. Desse bolo, R$ 194,6 milhões — 17,6% — foram só para Canaã dos Carajás. E quando se juntam as quatro cidades cravadas sobre a Serra dos Carajás — Canaã, Parauapebas, Marabá e Curionópolis — elas ficam com um de cada três reais pagos pela mineração a todos os municípios do país (33,4% no repasse de junho).

Onde a CFEM municipal se concentra

Repasse de junho/2026 (remessa 750): quatro cidades de Carajás x todos os outros ~2.160 municípios do Brasil.

Fonte: ANM, relatório de distribuição — remessa 750 (07/07/2026).

É uma concentração que desafia o mapa: um punhado de municípios do sudeste do Pará recebe mais royalties de mineração que estados inteiros. Nas mesmas remessas, o estado do Pará só perde para Minas Gerais — e, dentro do Pará, quase tudo cabe em quatro cidades sobre a mesma serra.

Da noite para o dia

Nem sempre foi assim. A CFEM de Canaã saltou de R$ 19 milhões em 2016 para R$ 40 milhões em 2017, R$ 178 milhões em 2018 e R$ 413 milhões em 2019 — e seguiu subindo. O gatilho foi a entrada em operação comercial do S11D, o maior investimento privado do país na década, com US$ 14,3 bilhões. Em menos de dez anos, o valor recebido pela prefeitura multiplicou-se por mais de trinta.

A explosão da CFEM em Canaã dos Carajás

Royalties recebidos pela prefeitura, por ano (R$ milhões). 2026 = projeção pelo ritmo de abr–jun.

Fontes: Inesc/Unifesspa (2016–2019), Portal Canaã (2023) e ANM (2026, anualizado).

O dinheiro cresceu na velocidade do minério — e junto veio a explosão demográfica. A população pulou de 11 mil habitantes em 2000 para 77 mil no Censo de 2022 e quase 90 mil em 2025. A cidade ficou rica antes de ficar pronta.

Para onde vai o dinheiro?

Aqui a matéria deixa de ser sobre arrecadação e passa a ser sobre escolha. A CFEM tem regras: os recursos não podem pagar dívida nem a folha permanente de servidores, e devem financiar projetos que revertam, direta ou indiretamente, em benefício da comunidade — infraestrutura, meio ambiente, saúde, educação.

Na prática, a fiscalização independente encontra outra coisa. Um estudo do Inesc em parceria com a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) — pioneiro no monitoramento da CFEM em Canaã — mostrou que a compensação chegou a responder por 66% da receita da cidade, um dos maiores índices de dependência mineral do Brasil. E que a maior parte dos royalties era consumida pela própria máquina pública:

“Dos R$ 413,5 milhões arrecadados via CFEM em 2019, cerca de 60% foram aplicados na máquina pública e em urbanismo — manutenção de secretarias, asfaltamento, limpeza urbana, auxílios, manutenção de prédios. Há pouco ou nenhum ganho social na forma como a prefeitura aplica o recurso.” — Estudo Inesc / Unifesspa

Os pesquisadores também esbarraram na opacidade: documentos orçamentários publicados como imagem, sem possibilidade de busca; a fonte “CFEM” que aparece e desaparece do detalhamento das despesas de um ano para o outro. “Ao cidadão comum não é permitido saber para onde está indo esse recurso, que é a maior parte da arrecadação, é finito e vinculado a uma atividade com enormes impactos sociais e ambientais”, resume a assessora política do Inesc, Alessandra Cardoso.

Seis anos depois, o diagnóstico persiste. Uma reportagem do Nexo/Revista Amazônia em 2025 voltou ao tema para constatar que, apesar da arrecadação bilionária, os municípios mineradores do Pará seguem marcados por “má distribuição e uso inadequado de recursos, escancarando o problema da falta de governança, transparência e critérios para a utilização das compensações”.

O outro lado

A prefeitura de Canaã contesta a leitura de descaso. O município aparece em primeiro lugar nacional em indicadores de gestão fiscal e execução orçamentária em rankings do setor, e a gestão afirma investir os royalties em “desenvolvimento sustentável” — creches, escolas, drenagem, pavimentação. Parte dessas obras é real e verificável. O ponto em disputa não é se a cidade constrói, mas quanto do dinheiro finito vira direito permanente — saneamento universal, saúde resolutiva, diversificação econômica que sobreviva ao fim da mina.

E o prazo importa: a Vale projeta que a jazida do S11D se esgote por volta de 2060. Canaã tem, portanto, poucas décadas de arrecadação excepcional para converter um privilégio geológico temporário em algo que reste quando o minério acabar. A pergunta que fecha a reportagem é a mesma que abre: um município que arrecada 400 vezes a média do país por habitante deveria ter, também, indicadores sociais 400 vezes melhores. Tem?

Nota metodológica.

Os valores de CFEM referem-se à cota-parte recebida pela prefeitura de Canaã dos Carajás, não ao total gerado pela mineração no município (a lei reparte a CFEM entre União, estados, municípios produtores e municípios afetados). Os dados de 2026 vêm dos relatórios oficiais de distribuição da ANM: remessa 746 (11/05/2026, ref. abril), remessa 747 (09/06/2026, ref. maio) e remessa 750 (07/07/2026, ref. junho). O per capita anualizado projeta a média mensal desses três repasses (R$ 64,9 mi) para doze meses e divide pela população estimada do IBGE para 2025 (89.524 habitantes); royalties de mineração oscilam com o volume produzido, o preço do minério em dólar e o câmbio, então trate a projeção anual como ordem de grandeza. A comparação nacional usa o total efetivamente repassado a municípios nas mesmas três remessas (R$ 1,104 bilhão) sobre a população estimada do país (~212,6 mi), resultando em ~R$ 21/habitante/ano. Os dados de 2016–2019 vêm do estudo Inesc/Unifesspa.

Fontes



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