Dois dos maiores bancos de investimento do país apontam trajetória positiva para o setor de varejo farmacêutico brasileiro, mas com intensidades diferentes. Enquanto o BTG Pactual enxerga uma década de expansão estrutural acelerada, a Ágora sinaliza cautela tática frente ao cenário macroeconômico mais desafiador de juros elevados.
Base estrutural robusta
O relatório do BTG Pactual descreve uma dinâmica poderosa: o mercado farmacêutico brasileiro mais que triplicou em uma década, atingindo R$ 170 bilhões em 2024-25, crescendo consistentemente acima do PIB e da inflação. As projeções do banco indicam expansão entre 10% e 12% ao ano em 2025-26, desacelerando gradualmente mas permanecendo substancialmente acima de praticamente todas as categorias de varejo.
A tese estrutural do banco repousa em cinco pilares simultâneos:
- Envelhecimento populacional, com a população acima de 60 anos dobrando nas próximas décadas
- Aumento da prevalência de doenças crônicas (cardiovasculares, diabetes, oncologia)
- Expansão da saúde privada
- Ampliação do acesso por meio de programas como o Farmácia Popular
- Contínua inovação farmacêutica elevando o valor médio das prescrições
Medicamentos prescritos: resiliência excepcional
Medicamentos sujeitos a prescrição dominam com 65% do mercado e apresentam elasticidade muito baixa — comportamento defensivo que, segundo o BTG, proporciona uma base de receita praticamente à prova de recessão ao longo de ciclos econômicos. Essa característica explica por que o banco sustenta que, mesmo excluindo completamente os medicamentos para obesidade (GLP-1), o setor oferece uma das combinações mais atrativas de demanda defensiva e crescimento estrutural do varejo brasileiro.
Leitura tática: ceticismo justificado
A Ágora, porém, oferece leitura mais crítica do momento. Após atualizar projeções incorporando um cenário de juros mais altos — com Selic média estimada em 12% para 2027 —, a casa reduziu as estimativas de lucro para 2027 de várias empresas do setor, revisão que reflete a pressão de custos financeiros sobre o segmento.
A Ágora mantém RD Saúde (RADL3) como principal recomendação, projetando crescimento de 19% em receita e EBITDA, combinando, segundo a casa, “qualidade operacional, elevada liquidez das ações e avaliação atrativa”. A companhia se beneficiaria de forte execução comercial, ganhos de escala e eficiência operacional.
Vencedores e perdedores no curto prazo, segundo a Ágora
Panvel: destaque positivo
Panvel (PNVL3) emerge como destaque na leitura da Ágora, com projeção de 26% de crescimento no EBITDA, impulsionada pela demanda persistente por GLP-1 e pela aceleração em categorias de higiene, perfumaria e cosméticos — única empresa do setor a receber revisão positiva de lucro para 2027 na casa. A participação de GLP-1 no mix da companhia alcançaria aproximadamente 11,5%.
Pague Menos: desaceleração preocupante
Contraponto vem de Pague Menos (PGMN3), para quem a Ágora projeta desaceleração no crescimento de vendas — para apenas 10% no comparativo anual, abaixo dos níveis observados no início do ano. A pressão resultaria de:
- Base de comparação mais desafiadora
- Menor contribuição de GLP-1
- Impactos do programa Farmácia Popular
O crescimento de EBITDA da companhia é projetado pela casa em apenas 13%, desacelerando em relação ao trimestre anterior.
Outros operadores: perspectivas modestas
Hypera (HYPE3), Blau (BLAU3) e Viveo (VVEO3) apresentam perspectivas mais modestas na leitura da Ágora, refletindo “condições ainda desafiadoras em alguns de seus mercados de atuação”.
GLP-1: acelerador, não alicerce
O BTG situa o fenômeno GLP-1 em perspectiva mais comedida. O banco estima que o mercado brasileiro de GLP-1 (obesidade e diabetes combinados) poderá superar R$ 17 bilhões em 2026, representando aproximadamente um quarto do crescimento do setor — volume significativo, mas, segundo o BTG, longe de ser a narrativa inteira.
O banco projeta que as margens brutas iniciais (18%) devem convergir para:
- Aproximadamente 25% até o final de 2026
- Acima de 30% no médio prazo
O que tornaria o GLP-1, na leitura do BTG, um contribuinte material para os lucros do setor, não apenas um gerador de tráfego nas lojas.
“Mesmo excluindo totalmente os medicamentos GLP-1, acreditamos que o varejo farmacêutico brasileiro continua sendo uma das histórias de crescimento estrutural de maior qualidade dentro dos setores de consumo doméstico” — BTG Pactual
Dinâmica de consolidação favorável
O BTG identifica um fator competitivo estruturalmente favorável: o nível de consolidação do setor permanece relativamente baixo comparado a mercados desenvolvidos, deixando amplo espaço para ganhos de participação.
Redes organizadas continuariam expandindo frente a farmácias independentes por meio de escala de compras, logística superior, ecossistemas digitais, programas de fidelidade e capacidades omnichannel. Grandes varejistas como a Raia Drogasil se transformaram progressivamente em varejistas de saúde e bem-estar, usando marcas exclusivas, dermocosméticos premium, suplementos nutricionais e produtos de beleza para elevar o tíquete médio — dinâmica que, segundo o BTG, expandiu margens brutas na última década e deve continuar contribuindo para a rentabilidade do setor.
Onde os dois relatórios convergem e onde divergem
As duas análises, aparentemente discrepantes, na verdade se complementam:
- O BTG Pactual oferece uma visão de décadas, validando a estrutura fundamental do setor — crescimento que persistiria mesmo sob premissas macroeconômicas conservadoras.
- A Ágora oferece uma leitura pragmática do ciclo atual, em que juros mais altos impõem seleção entre empresas.
A convergência entre as duas casas está em reconhecer que o setor segue uma trajetória de crescimento estrutural que ambas consideram sólida. A divergência está no timing e na seleção: enquanto alguns operadores desacelerariam em resposta a pressões táticas (Pague Menos, na leitura da Ágora), outros capturariam dinâmicas positivas (Panvel, RD Saúde) que os projetariam para fora do ciclo de juros altos.
Esta matéria resume e atribui recomendações de research de terceiros (BTG Pactual e Ágora Investimentos). Não constitui recomendação de investimento do Ver-o-Money — decisões de alocação exigem análise própria ou orientação de um profissional habilitado.
Fontes:
- Ágora Insights: Análise de Empresas Saúde (20/07/2026)
- BTG Pactual Equity Research: Varejo & Consumo - Além dos GLP-1 (21/07/2026)